Fiz uma viagem à Finlândia com meu marido há alguns anos. Foi uma viagem curiosamente solitária, aventureira e, digamos, silenciosa. Fomos em um vôo Madrid-Frankfurt e depois Frankfurt-Helsinki. Do aeroporto pegamos nosso carro alugado, pegamos o mapa das estradas do país, o mapa do “caminho” para chegar ao nosso destino, e o mapa do aeroporto, para que a gente pudesse sair daquele entramado de estradas ao redor. Ao ligar o motor do carro, automaticamente os faróis se acendem. É obrigatório dirigir com os faróis acesos. Era agosto e o clima estava ameno, pelo menos para os padrões finlandeses. É bastante agradável percorrer Finlândia de carro. A paisagem se constitui de bosques de coníferas e bétulas.
Os finlandeses são motoristas muito conscientes, todos vão à mesma velocidade, respeitando os limites. Percorremos mais ou menos a metade do país. Eu estava de co-piloto e peguei o mapa com as indicações de estradas secundárias e o mapa feito a mão pelo dono da cabana. Isso mesmo, íamos a uma cabana localizada em algum lugar incerto no meio do país. Já havia escurecido, tínhamos que abastecer o tanque por última vez, no meio do nada. Encontramos um posto de gasolina totalmente automático, solitário, iluminado no meio do nada, que funcionava com cartão de crédito. Rezamos para que funcionasse. Sim, pudemos encher o tanque. Seguimos nosso caminho, por meio de estradas secundárias. Estávamos cercados por árvores, e íamos por uma estradinha sem placas, sem iluminação. Só placas alertando da presença de renas e alces. No mapa, informavam: “depois de tal lugar, vire à direita, depois de x, vire à esquerda. Não sabíamos mais se estávamos no caminho certo e tínhamos que ter cuidado para de repente não atropelarmos nenhum animal no caminho. Estávamos já no final das indicações do mapa, que terminava com o nome do lugar a que tínhamos que chegar, R.
Encontramos uma casa iluminada no meio do nada. Resolvemos parar e perguntar se o tal R. estava longe. Chegamos perto dessa casa, estacionamos o carro, e por sorte o tal R. era lá mesmo! Na realidade, era o nome da casa em que íamos ficar! Da nossa cabana! Que alegria descobrir que não estávamos perdidos e que já havíamos chegado. Nos recebeu um casal de jovens super altos e loiros. Havíamos levado uns doces e uma garrafa de licor para o dono da casa, como lembrança da Espanha. Nos explicaram como funcionava tudo, que deveríamos deixar a cabana como a encontramos. Que quando saíssemos, o lixo deveria ser colocado fora nas latas apropriadas quando fôssemos embora. Se queríamos que limpassem a casa teríamos que informar antes. Que se queríamos lençóis descartáveis adicionais (sim, uns lençóis de polipropileno, parecem uma espécie de papel) tínhamos que informar antes também. Nos explicaram como funcionava a sauna, o sistema de aquecimento da casa. Nos agradeceram as coisas que lhes levamos, nos cumprimentaram, pegaram o saco de dormir, recolheram suas coisas e se mandaram. Nunca mais os vimos.
Já era tarde, lá pelas 11 da noite. Pegamos nossas malas, entramos na cabana e resolvemos descansar. A cabana era espaçosa e aconchegante. Toda de madeira, uma sala espaçosa, cozinha, um quarto. A decoração era peculiar: uma cabeça de alce na parede, umas raquetes antigas de caminhar na neve. A tv não sintonizava muito bem em nenhum canal. Saindo pela porta principal, na porta ao lado tínhamos nossa própria sauna tradicional finlandesa (funciona com um forninho, com lenha e pedras). Enfrente, um lago enorme. Ao lado da cabana, uma caseta para armazenar lenha. Olhando pela janela não se via nada. Tudo negro. No dia seguinte teríamos que encontrar algum supermercado. Não tínhamos nada para comer. (continua…)